29 junho 2006

Ensaio sobre o livro "O Equívoco"


O Equívoco, a Hipocrisia e a Educação

Um equívoco, dois equívocos, vários equívocos! João Uchôa Cavalcanti Netto narra de forma crua e direta, no desconcertante livro “O Equívoco”, diversos contos com estórias de erros, intrigas e mazelas que denunciam a fragilidade do nosso sistema judiciário e a ausência de ética e moralidade em todos os níveis das nossas relações sociais. E o mais grave: são contos bandidos que foram escritos há mais de trinta anos, e que agora, reeditados, se mostram implacavelmente atuais.
Não posso deixar de recordar minha surpresa ao terminar de ler, há cerca de dez anos, quando ainda era estudante de Direito, o livro “O Direito, um Mito”, deste mesmo autor, cuja idéia principal do livro martelava na minha cabeça: onde há Amor, não há necessidade do Direito, que se torna supérfluo, um Mito. E agora, ao terminar de ler os impressionantes contos deste “O Equívoco”, uma outra pergunta me atormenta: qual a origem da nossa miséria moral que gera tantos equívocos e tanta injustiça?
Caminhando de terno e gravata pelo Centro da cidade em direção ao Fórum, sob um sol escaldante e um calor de mais 40 graus, vem a mim, de súbito, o que parece ser uma das principais causas: é a hipocrisia! Somos educados para disfarçar nossas verdadeiras intenções e sentimentos antes mesmo de aprendermos a falar e, quanto mais fingimos, mais respeitados somos, mais ricos ficamos! E é evidente que a hipocrisia e a injustiça caminham juntas, de mãos dadas, pelo que me ocorre este utópico pensamento: onde há a Verdade, não há necessidade da Justiça, que se torna irrelevante.
Nos contos de João Uchôa Cavalcanti Netto percebe-se que a hipocrisia está por toda parte e o que é pior: é ela quem sustenta e mantém nossos comportamentos e nossa intrincada cadeia de relacionamentos. No conto de número 18 narra-se o desespero de um cliente abandonado e traído por seu inescrupuloso advogado, uma classe com notória má-fama perante a sociedade e que, assim como a classe política, se obriga ao uso de terno e gravata como forma de impor respeito, quando deveriam ser o conhecimento e a integridade as formas mais apropriadas de se obter o devido respeito. Nossa classe política nunca esteve tão desacreditada como hoje em dia, em meio a tantos escândalos e demonstrações descaradas de falta de ética, mas como sabemos, ela é reflexo da nossa sociedade.
Já o conto número 14 mostra a desventura de um policial que tenta cumprir a lei fechando uma casa de prostituição, e é penalizado por isto, porque até as mais altas autoridades utilizam-se dos serviços de prostitutas, tratando-se de mais um caso, entre tantos, onde o bom profissional é punido injustamente pelo simples fato de tentar atuar de forma honesta.
Tudo conspira para que vivamos da maneira mais hipócrita possível. E assim nos acostumamos a resolver as situações difíceis da maneira mais cômoda possível: fingindo um pouco aqui, omitindo um pouco ali, pedindo ou soltando uma grana acolá e trocando favores com supostos amigos.
E eis que, conforme foi magistralmente narrado no conto de número 12, o juiz se vê subitamente espelhado no bandido, o engenheiro se vê espelhado no peão, a patroa não difere da doméstica, nem o banqueiro difere do bufão. Por debaixo de nossas máscaras e fantasias, somos irmãos em desejos, sofremos as mesmas frustrações e as soluções que nos socorrem são muito parecidas.
Não resta dúvida de que a violência física decorre na grande maioria dos casos da violência moral gerada por atitudes hipócritas. É o marido traído que quer lavar sua honra matando os traidores, o traficante que mata para consolidar e expandir seus domínios e poder vender drogas para a classe média consumir trancada no banheiro, o desempregado desiludido com promessas políticas não cumpridas e que rouba porque não tem nenhuma perspectiva de arrumar um emprego decente, entre tantos outros exemplos possíveis.
O livro expõe mazelas, mas não indica soluções que possam contribuir para a reversão deste quadro melancólico. Não é a isto que se propõe João Uchoa Cavalcanti Netto. Estaremos condenados à hipocrisia e a injustiça pelo resto dos tempos? Analisando e comparando os aspectos da nossa miséria moral como fonte de conflitos, principalmente nos grandes centros urbanos, não posso me furtar a indicar o que me parece ser o caminho: necessitamos de mais educação! Não apenas a educação escolar tradicional, que deve ser priorizada em todos os níveis, mas também a educação em sentido amplo, abrangendo questões sociais e culturais, na forma de campanhas preventivas e sócio-educacionais.
Proibir é o caminho mais fácil. Não pode e pronto! É crime! Conseqüência: prisões superlotadas. Explicar é mais complicado, demanda mais tempo e dinheiro. Mas aonde há educação, não se necessita de prisão. Um exemplo positivo: o cigarro. O número de fumantes foi reduzido drasticamente nos últimos anos, principalmente entre os mais jovens, devido a eficazes campanhas publicitárias expondo e denunciando os males do consumo.
Campanhas semelhantes poderiam ser aplicadas em diversos outros casos onde a lei empurra para a criminalidade, para a corrupção e para a hipocrisia diversas pessoas que só estão fazendo mal a si mesmas, e que, portanto, deveriam ser ajudadas com tratamentos médicos e educacionais e não apenas trancafiadas na prisão.
Com educação pode-se erradicar a miséria, transformando a ignorância em sabedoria, pode-se ampliar a consciência das pessoas, formando autênticos cidadãos. Pobre do país que não prioriza a educação. Haverá ferro suficiente para que cada um construa sua própria prisão? Quanta miséria caberá ainda neste Brasil que quer ser rico, mas é apenas mesquinho, que finge ser grande, quando grande é a sombra das lágrimas dos que choram pelos equívocos e injustiças cometidos justamente contra os mais necessitados? O povo quer saber, mas não querem que o povo saiba, porque é justamente na ignorância do povo que reside a força daqueles que detêm o poder.