15 novembro 2005

Má fama dos advogados

Uma coisa que me incomoda é a má fama dos advogados. Fama de aproveitadores, de inescrupulosos, de desalmados... E ainda tem aquelas piadinhas infames, tipo “Qual a diferença que existe entre a Ordem dos Advogados e a caixa-d'água? É que na caixa-d'água só existe um ladrão”. Fico tentando entender e encontrar explicações que nos redimam. Acho que deve ser porque, por melhor que seja seu advogado, do outro lado sempre tem um advogado que também estará fazendo tudo para defender a outra parte. Ou seja, tem um advogado “do bem” do seu lado e um “do mal” do outro lado, o que já deixa a pessoa inevitavelmente 50% incompatibilizada com a classe. Sendo que o advogado “do bem” tem três possibilidades. Se ele perde a causa, não tem jeito, a classe toda é de pulhas! Se ele ganha a causa, considerando que, até por estratégia, um advogado sempre pede mais do que o que seria estritamente devido ou justo, o mais comum é que se ganhe apenas parte do pedido. Assim, ocorre que muito raramente o cliente estará inteiramente satisfeito. Ademais, o sentimento geral é de que a justiça é um direito divino: “No fim, a justiça será feita, graças a Deus”. E ainda ter que pagar por um intermediário para conseguir aquilo que já deveria ser seu por direito divino, ninguém se conforma! E tome piadinhas... Aliás, sabe por que as piadas de advogado não funcionam? Porque os advogados não acham graça nenhuma nelas e o resto das pessoas não acha que são piadas.

02 novembro 2005

Sonhador e iludido

Eu ainda era estagiário e um conhecido me pediu para ajuizar uma ação complexa contra uma multinacional, com um pedido de indenização de mais de 1 milhão de reais!!! Na época, lembrei logo daqueles filmes de tribunal americanos e imaginei até a manchete no jornal: ”ESTAGIÁRIO GANHA CAUSA MILIONÁRIA CONTRA MULTINACIONAL”. Ou então me via em uma reunião com os poderosos advogados da empresa, que tentavam me convencer a fechar um acordo, e eu, duro na queda, dizendo que por menos de quinhentos mil não tinha conversa. Hoje, mais de sete anos depois, o processo se arrasta entre uma infinidade de recursos e a morosidade da justiça. Continuo com o mesmo ímpeto e entusiasmo dos tempos de estagiário, mas, certamente, bem menos iludido e sonhador.

cão chupando manga

O professor de Processo Civil na faculdade era o cão chupando manga. A média de aprovados diretos na turma ficava entre 10% e 20% do total. O resto ia para recuperação e, destes, apenas a metade conseguia a aprovação final. Eu não estava afim nem de ficar em recuperação, meti a cara no estudo e consegui passar direto. Alguns anos depois, recém-formado, fui fazer uma audiência e quem era o meritíssimo juiz? O próprio. E ele lembrou de mim, me elogiou, encheu minha bola, fiz alguns requerimentos na audiência e ele deferiu todos. O advogado da outra parte ficou até ressabiado. Voltei para o escritório entusiasmado, contei para todo mundo o que havia acontecido, considerei a causa ganha. Uma semana após foi proferida a sentença: perdi feio a causa, com meu cliente amargando uma condenação até maior do que a média em casos semelhantes. Moral da história? Não sei, estou tentando descobrir até hoje.
Essa foi a própria juíza quem me contou. O reclamante chegou na sala de audiências do juizado especial cível com uma pilha de revistas pornográficas nas mãos. “Doutora, eu confesso, sou viciado em revistas pornográficas, faço até coleção.” A juíza, muito solícita, perguntou o que havia acontecido, qual o motivo da indignação do reclamante. E ele explicou: “Doutora, acontece que na banca de jornal lá do bairro tinha uma revista anunciando FOTOS INÉDITAS. Comprei a revista e qual não foi minha decepção ao chegar em casa e ver que as fotos não eram inéditas coisa nenhuma, eu já conhecia a maioria. Olha aqui, doutora, veja só...” A juíza, constrangida, deu uma rápida olhada, apenas para confirmar que as fotos eram mesmo repetidas. Constatando que a alegação do reclamante era procedente, a juíza não pestanejou, deu ganho de causa para o pornográfico reclamante, arbitrando uma indenização a título de danos morais suficiente para ele comprar muitas outras revistas com fotos inéditas.